domingo, 6 de novembro de 2016

Carta para meu filho

Filho


Eu não sei onde você está agora, o que está fazendo e, principalmente, o que está passando. Mas eu penso em você. Eu oro por você, e peço que venha logo para os meus braços, pra que eu possa te proteger de toda a dor e sofrimento que deve estar vivendo. Pra que eu possa curar suas feridas e te ajudar a conviver com as cicatrizes. Pra que eu possa ser o pai que tanto te falta, que te ame e te ensine tudo o que você precisa para se tornar um adulto feliz e realizado, enquanto eu também aprendo muito com você.


Já posso imaginar como será quando eu finalmente estiver com você: Vou contar histórias antes de você dormir, te cobrir e te dar um beijo de boa noite na testa. Vou te ajudar a arrumar sua mochila para a escola, estar na primeira fila em todas as suas apresentações. Vou sentar no chão e montar legos com você. Quando jogarmos videogame, provavelmente vou deixar que você ganhe algumas vezes (nas outras, eu vou perder mesmo, pois vai ficar melhor que eu). Quando você estiver irritado, vou olhar nos seus olhos e te ajudar a superar. Vou te dizer o que é errado, o que é certo, e te dar o poder de decidir. Vamos viajar, conhecer lugares, aprender muita coisa bacana juntos. E com toda certeza vou sentir muito orgulho quando você demonstrar que sabe mais sobre alguma coisa do que eu. 


Quando você pedir, vou preparar seu prato favorito, e vamos comer até dizer chega. Mas também vou te ensinar a comer verduras, legumes e outras coisas que nem eu, e nem você vamos gostar muito. Se você brigar com alguém, vou tentar te ensinar a ouvir e resolver as coisas de outra maneira, e se ainda estiver bravo, vou dar o espaço que você precisa. Se ficar doente, vou cuidar de você com mais afinco ainda, vou estar lá, ao seu lado, até que você se recupere. 


Vou entender o tempo que vai precisar pra se adaptar à nova vida. Vou ser compreensivo quando quiser me testar, e fazer de tudo para que tenha a certeza de que nunca vou te abandonar. Que confiar no amor que sinto por você é seguro. Vou respeitar o seu passado, e só vamos falar dele quando você quiser. Se for doloroso demais, vamos focar no presente. Você não vai ter mãe, somente um pai, mas eu prometo ser o mais dedicado dos pais, me esforçar cinquenta vezes mais pra  conseguir ser tudo que você precisa, não importa do que eu tenha que abrir mão.


Vamos brincar na chuva, na terra, vamos visitar o zoológico, vamos no clube aquático, vamos jogar no campinho, vamos pedir doces no ano novo, vamos montar o trem de brinquedo e ficar imaginando mil aventuras enquanto ele roda pelos trilhos. Vamos estudar juntos, vamos conversar sobre seus problemas, vamos remediar o que fizer de errado, vamos crescer juntos. E, independente do caminho que você seguir, eu estarei lá, do seu lado, me perguntando se tudo o que fiz foi o suficiente. E, lá no futuro, se você olhar para mim e eu ver a felicidade nos seus olhos, eu vou saber que sim...

Eu sei que é difícil filho, e que você nem imagina, na vida que deve levar agora, que tem alguém aqui, colocando nessas palavras um sentimento que chega a ser sufocante (e por isso precisa desse desabafo), que te ama tanto assim, e está tão disposto a cuidar de você, a te dar tudo que faltou até agora na sua vida. Alguém que quer lhe mostrar o que é ser cuidado, amado e compreendido. Que quer te ensinar o caminho do bem, do amor e da compreensão. E mesmo que você não leia essas palavras, tenho certeza que o meu coração, e minhas orações, de alguma maneira chegarão até você.

Então seja forte, aguente mais um pouco. No tempo certo, eu vou te encontrar. E você nunca mais estará sozinho. Te amo.


 Papai

p.s: Escrevi isso em um dia em que meu único pensamento é você, em que o sentimento tomou tal forma que eu precisei desabafar de algum jeito, colocar pra fora. Esse texto foi a melhor maneira que encontrei. 

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

A Melhor Decisão

Estive no Fórum para a mudança de perfil. A espera por essa reunião foi engraçada, parecia que ela era essencial para minha felicidade, e realmente foi assim, dado o modo como o resto do dia transcorreu.

Logo que cheguei sentei no banco de espera e fiquei lendo. Logo a Zilda (uma das moças que trabaha lá, e também está na fila de espera) veio falar comigo. perguntei do seu processo e disse que estava ali para mudança de perfil. Ela ficou contente, e disse que eu tinha que fazer isso mesmo.

Tornei a me sentar e logo a Ticiane chegou. Cumprimentei-a e ela pediu para eu esperar um pouco. Em seguido a Elisângela chegou também, e logo me chamaram na salinha (que era uma outra sala, adjacente à que eu estava acostumado).

Entrei, cumprimentei-as novamente e logo mandei "Então, por onde começo"?
Nós rimos, e falei da mudança de perfil. Elas perguntaram se seria de 1 a 8, eu disse que poderia colocar 0 a 8, pois a insegurança de lidar com o bebê já havia passado.

Contei então o porquê da mudança. Expliquei a história da Busca Ativa do menino de 10 anos lá na página Escolha de Amar, o dilema que veio me atormentando desde então sobre adoção tardia, meus processos mentais tentando diferenciar o que era desejo, dever e pressa, e tudo o mais, culminando na história da foto na página Adoçando o Coração. Elas ouviram e iam questionando uma coisa ou outra.

Terminando de explicar, questionaram se eu tinha noção de que a aproximação poderia ser mais lenta, pois a criança já tinha uma história maior, e se eu estaria preparado para todas essas fases. Eu disse que não via dificuldades nisso, sabia que esse filho passaria pela regressão, pelos testes, para só depois me estabelecer como pai. Mas que eu estaria ao lado dele  sempre e deixaria claro que ele era meu filho. Elas pareceram gostar da explicação.

A Ticiane então me perguntou se ainda era só menino, ao que eu respondi sim, e perguntou novamente de irmãos, ao que eu dei um titubeada antes de responder que não. Expliquei que minha preocupação era financeira, que eu queria dar o melhor pra esse filho, e teria melhores condições sendo um só. Ela concordou e disse que estou muito certo de ver dessa maneira.

Falamos depois do meu trabalho, daí citei a faculdade e o trabalho de palhaço (no qual em uma das festas eu havia encontrado a Ticiane). Acabei contando que tudo começou no abrigo, pelo convite para a festa do Jhonatan, e que fui algumas vezes lá como palhaço. Ela quis saber se eu tinha contato no abrigo e eu expliquei que não, que até queria voluntariar lá, mas que a Coordenadora achou melhor não, então eu só ia lá como palhaço mesmo.

Nesse momento ela me deu uma notícia excelente: O Jhonatan, a Lorena e a Lorraine (suas irmãs) estavam quase certos para serem adotados por uma família de outra cidade. Fiquei muito feliz por isso, pelos três terem conseguido uma família juntos.

Por fim perguntei do apadrinhamento afetivo, elas explicaram que era um processo próximo ao da adoção. Questionei se eu poderia apadrinhar, pois sempre tivera essa vontade, e elas disseram que sim, eu poderia, mas tem que ser algo bem pensado, por estar na fila, depois meu filho chegar, como ficaria esse apadrinhamento e tudo mais. Comentei que achava melhor fazer isso depois da adoção, e elas concordaram. Acabei citando um adolescente da Casa que gosto muito e elas me disseram que ele foi para o apadrinhamento, o que me deixou muito feliz também.

Por fim nos despedimos, já deixando claro para elas que eu poderia voltar daqui a alguns meses mudar novamente o perfil pois toda essa espera estava sendo um processo (gostoso, por sinal) de amadurecimento de ideias e tudo o mais.

Saí de lá, e o que experimentei no resto da tarde foi sem igual. Uma paz de espírito, um sentimento de alegria tranquila, que eu não experimentava há muito tempo mesmo. Foi como se concretizar essa mudança de perfil fosse a decisão mais acertada de todas, a decisão que ainda me traria muitas felicidades.

p.s: Deixei um agradecimento para a Priscila ( da Escolha de Amar) e para a Rita (da Adoçando o Coração), pois todos esse processo de mudança de perfil teve envolvimento de alguma das duas em algum momento.